Perfil:
Wilson foi diretor de jornalismo da RPCTV, cargo em que esteve por
mais de 15 anos. Chefiou também a produção dos telejornais da TV
Globo. Atualmente é conselheiro editorial do grupo GRPCOM.
1 – Pedro Lima:
Obrigado Wilson por essa entrevista. Numa entrevista concedida em
2005, você disse que apaixonou-se pela profissão do jornalista após
a entrada na faculdade. Chegou a pensar em fazer outro tipo de curso
ou talvez seguisse uma carreira diferente?
Wilson Serra:
Comecei no Jornalismo dos anos 60, em Maringá, época em que não
havia a exigência de registro ou de diploma para o exercício da
profissão e também não havia faculdades de Jornalismo no Interior
do Estado. Se aprendia fazendo, na prática. E se fazia por fazer, na
base do voluntarismo, sem uma preocupação social, uma visão de
mundo, de causa e consequência. Isso só veio anos mais tarde, com a
faculdade. Ela não me ensinou práticas e processos, me deu
conhecimento sobre o meu papel. E, por isso, me apaixonei pela
profissão. O que era um processo mecânico virou sentido de vida. E
como não havia faculdades de Jornalismo no Interior, meu primeiro
vestibular foi para Direito em Maringá mesmo, mas não passei. Só
nos anos 70, com a criação do Curso de Jornalismo na Universidade
de Londrina, e eu morando em Apucarana, uma cidade mais próxima,
entrei para a faculdade. Se tivesse passado no vestibular para
Direito, talvez, minha vida seria outra.
2 – Pedro Lima: Você
passou pelo jornalismo impresso, rádio, tevê, produtora e por fim,
assessoria de imprensa. Em sua carreira, houve algo na profissão que
queria fazer e não conseguiu?
Wilson Serra:
Em termos de carreira profissional, nunca fui uma pessoa de metas e
objetivos definidos ou planejados. As coisas foram acontecendo
naturalmente. Sempre fui curioso, com disposição de observar,
aprender, aceitar e encarar os desafios. E tive a felicidade de, ao
longo da minha carreira, ter convivido e trabalhado com jornalistas
muito competentes e com paciência para corrigir meus erros e me
ensinar. A eles devo tudo o que sei e que posso ter realizado na
carreira. E como nada foi planejado, me sinto feliz com o que fiz e
consegui. Me sinto realizado.
3 – Pedro Lima:
Wilson, durante sua passagem na TV Globo Rio, você chefiou
telejornais diários da rede e o Núcleo de Reportagens Especiais.
Como foi essa experiência em uma grande rede de televisão?
Wilson Serra:
Um esclarecimento precisa ser feito: chefiei a produção dos
telejornais e programas da rede. O comando e o poder de decisão
sobre eles eram e continuam sendo dos editores chefes. Mas isso não
anula a valiosa experiência. Trabalhar numa rede nacional abre a tua
visão, te faz olhar além da esquina, da tua cidade, do teu estado.
Te ensina a dimensionar o peso da informação e o interesse público
que ela carrega, te ensina a comparar a tua realidade com a dos
outros, te ensina a ver além do próprio umbigo. E veio também a
experiência de planejar e trabalhar em grandes coberturas de grandes
eventos, desde a visita de um papa à uma eleição presidencial,
passando por olimpíadas e copa do mundo.
4 – Pedro Lima:
No ano de 1999, o Paraná TV entrava no lugar do extinto Jornal
Estadual. Para o público, houve alguma diferença entre ambos os
telejornais? Qual era o propósito dessa troca, já que os
apresentadores não eram necessariamente jornalistas na época do
então Jornal Estadual? E por último, o público paranaense é
exigente?
Wilson Serra:
Quando retornei para a RPC, em 2000, a mudança já tinha ocorrido.
Mas posso dizer que ela foi mais significativa dentro do que fora da
TV. Foi a partir dessa mudança que o Jornalismo ganhou identidade,
personalidade. Antes, faziam os telejornais profissionais de várias
áreas, como Programação e Engenharia, além do Jornalismo, claro.
Depois dela, todos passaram a ser do Jornalismo, fator fundamental
para a integração das pessoas e o alinhamento editorial. Em resumo,
o Jornalismo passou a ser feito por jornalistas.
Sobre o público paranaense, ele é muito
diverso. Cada região do Estado teve uma colonização diferente e,
portanto, tem hábitos, culturas e valores diferentes. Cabe ao
jornalista o desafio de entender e respeitar esses valores, fazendo
uma comunicação que leve em conta essas diferenças. Se não faz
isso, não é visto ou é rejeitado. E a culpa não é de uma suposta
exigência do público, mas da incapacidade do jornalista de
trabalhar com essa multiplicidade de culturas e valores.
5 – Pedro Lima:
No quesito pioneirismo, a RPC esteve sempre a frente. Um exemplo foi
adotar, primeiramente, um modelo de telejornal fora da rede (SPTV) e
também no lançamento do sinal digital em 2007. Este sempre foi o
objetivo da emissora, assim como no jornalismo?
Wilson Serra:
No mundo atual, não só as empresas, quem não evolui fica para
trás. A RPC cresceu porque acompanhou todos os processos de
modernização e mudanças de tecnologias, não só com a transmissão
do sinal em digital e alta definição, mas também em todo o
processamento interno de imagens e informações. Hoje não há mais
ilhas nem fitas. Tudo é digital. E ela não esperou as outras para
depois fazer o seu dever de casa. Foi a primeira TV do sul do Brasil
a transmitir em digital e uma das primeiras do país a ter toda
produção e o processamento interno, integrados e digitalizados. No
conteúdo, especialmente no Jornalismo, sempre fomos parceiros de
primeira hora da Globo no lançamento de projetos, programas. A RPC é
, hoje, a principal e mais participativa das mais de cem emissoras
afiliadas que a Globo tem no Brasil.
6 – Pedro Lima:
A direção de jornalismo cuida, praticamente, de todos os programas
regionais. Como foi essa experiência, já que podemos considerar um
cargo sobrecarregado?
Wilson Serra:
Dirigir, alinhar e orientar o conteúdo editorial do Jornalismo da
RPC foi uma experiência extremamente gratificante. Durante os 15
anos que lá fiquei, em momento algum me faltou o apoio e a confiança
dos acionistas do grupo. Em todo esse período, tive toda
independência e em momento algum recebi ou sofri qualquer
interferência por questões econômicas ou políticas. Tive também
a felicidade de encontrar uma base de equipe muito bem formada e
competente e, com ela, criar e estimular novos programas, séries e
projetos, alguns até bastante reconhecidos e premiados. Trabalhei
muito sim mas, em se tratando das questões editoriais, foi
extremamente prazeroso.
Mas, como disse há pouco, quem não
evolui fica para trás. A RPC, assim como a maioria das empresas, se
modernizou. Aos poucos, a direção de jornalismo que, no início,
cuidava quase que exclusivamente do editorial, passou a ser
sobrecarregada com muitas outras tarefas de gestão, de
administração. Essas tarefas, para as quais não tenho muita
afinidade, no final, já tomavam mais da metade do meu tempo, me
afastando do editorial que era o que sabia e gostava de fazer. A
consequência foi o cansaço, o esgotamento e, daí, o pedido de
“aposentadoria”.
7 – Pedro Lima: Hoje
você ocupa do cargo de conselheiro no GRPCOM. Como era a sua rotina
antes, como diretor de jornalismo e como ela é hoje?
Wilson Serra: Agora
faço só o que gosto, que é o editorial. Continuo apenas no
Conselho Editorial do Grupo que reúne, uma vez por semana, os
acionistas e diretores de redação dos veículos. Como disse, as
redações têm total independência, mas o Conselho tem a função
de alinhar princípios e valores éticos e editoriais e é, também,
um elo de ligação e de integração entre as redações dos
diversos veículos do grupo.
Perdi – e sinto falta – a correria do
dia a dia, o planejamento e o fechamento dos telejornais, mas juntos
foram a gestão e a burocracia, que tanto me aborreciam e
sobrecarregavam.
8 – Pedro Lima: Sua
carreira começou nos anos de 1967, já com a fase da Ditadura
Militar. Chegou a sofrer algum tipo de censura por parte do governo?
Wilson Serra: Comecei
no Esporte e depois do jornalismo local, áreas que passaram ao largo
do controle exercido pela ditadura aos veículos de comunicação.
Mas me lembro, na época em que trabalhei na TV Tibagi da Apucarana,
dos telegramas quase diários da Polícia Federal proibindo a
publicação de notícias nacionais. Eles eram colados por nós, numa
espécie de mural, no lado interno da porta da redação. Proibiam a
divulgação de prisões, assaltos, sequestros, manifestações
políticas e, com isso, acabavam nos informando das coisas que
aconteciam e que não sabíamos,
já que nada era publicado em veículo algum do país. Além disso,
todos os scripts dos telejornais, página por página, tinham que ser
assinados pelo responsável e enviados para a delegacia da PF em
Londrina. Não sei o que faziam com todos esses papéis lá, mas não
me lembro de qualquer punição ou advertência por alguma notícia
publicada, até porque os telejornais eram regionais, paranaenses.
9 – Pedro
Lima: A faculdade nos ensina a
sermos jornalistas imparciais. Na sua opinião, o jornalismo atual é
ainda visto dessa maneira?
Wilson
Serra: Imparcialidade não existe. Até quando escolhemos
entre duas notícias qual delas vai ao ar, vai ser publicada, já
estamos sendo parciais, privilegiando alguma coisa em detrimento de
outra.
10
– Pedro Lima: A internet
ajuda a população a ter voz. Você acha que os telejornais também
podem ser usados da mesma maneira?
Wilson Serra:
Respeitando os limites de espaço e tempo, os telejornais,
especialmente os da RPC, fazem isso já há um bom tempo. Em todos há
bons espaços de interação através do G1, do “portal de voz”
e, mais recentemente, do aplicativo “Você na RPC”. Fomos a
primeira afiliada da Globo a abrir um canal, o “Hora Certa”, para
a participação direta do telespectador, enviando imagens e até
reportagens prontas para publicação.
O problema é que o volume de
participações é tão grande que não há espaço para publicar
tudo. Me lembro que, há pouco mais de três anos, uma tempestade
causou muitos estragos em Maringá e nós recebemos, pelo “Hora
Certa”, mais de 500 imagens dessa chuva. Somadas, eram mais de seis
horas de imagens de uma chuva e toda a primeira edição do Paraná-TV
tem apenas 40 minutos de tempo de produção.
O fundamental é que o telejornal consiga
perceber e levar ao ar os anseios e as informações que representem
a voz da maioria da população.
11
– Pedro Lima: Hoje também
há muita discussão e ódio entre ideologias diferentes. O que nós,
jornalistas, podemos fazer em relação a isso?
Wilson Serra:
O momento do país é difícil e há muito radicalismo,
principalmente nas redes sociais. A minha formação é de um
jornalismo de informação, de serviço, de difusão de conhecimento.
Para julgar o lado A ou o lado B, existem a Justiça, as Leis, a
Constituição. Não cabe ao jornalismo a tarefa de julgar. Cabe sim
a apuração e a divulgação de informações completas e isentas de
todos os lados, deixando a população suficientemente conhecedora
para que ela possa, por si mesma, tomar a decisão. O povo não
precisa de tutores.
12
– Pedro Lima: Você
acompanhou diversas coberturas jornalísticas. Houve alguma que ficou
na memória?
Wilson Serra:
De todas, a mais marcante foi a série dos “Diários Secretos”,
não pelos prêmios, mas pela forma que ela começou e se
desenvolveu, porque resume tudo o que preguei nos mais 15 anos de
direção de Jornalismo na RPC. Ela não surgiu “de cima para
baixo”, como se diz nas redações. Nasceu do trabalho de apuração
da equipe, de baixo para cima, foi discutida internamente e levada em
frente com apoio e a confiança não só das chefias, mas também da
direção da empresa. Foram dois anos de pesquisa, de busca de
documentos, depoimentos, testemunhas, de provas irrefutáveis, tudo
com acompanhamento jurídico, para que, quando fosse publicada,
estivesse absolutamente correta.
E o que mais me marcou, que me deu a
certeza da alta qualidade da equipe que produziu a série, aconteceu
seis meses antes dela ir ao ar. Quando imaginávamos que tudo estava
pronto para a publicação, o time formado pelo James, pelo Gabriel,
pela Kátia e pelo Carlão, pediu uma nova reunião e apresentou
alguns pontos que, segundo eles, apesar de todas as evidências,
ainda necessitavam de mais documentos, de mais provas. E assim,
graças à prudência e a responsabilidade do quarteto, a série só
foi publicada quando todas as pontas estavam devidamente amarradas.
Para mim, foi a garantia de ter uma equipe competente e responsável.
13
– Pedro Lima: Há uma
ascensão grande da internet, com a chegada de notícias a todo
instante. Alguns dizem que, por conta disso, haverá a extinção do
jornal impresso. Na sua opinião, isso pode ocorrer?
Wilson Serra:
Há espaço para todo mundo. Diziam a mesma coisa do rádio quando
surgiu a televisão. Vivemos hoje um período de confusão com
diversos tipos de mídia disputando um mesmo espaço. A internet, até
surgir algo ainda mais revolucionário, é imbatível em velocidade e
em interatividade, mas perde muito em precisão e confiabilidade.
Assim como o rádio e a TV hoje convivem sem que um ameace o outro de
extinção, acredito que o jornalismo impresso ainda vai encontrar o
seu espaço. E o caminho certamente vai passar pelos pontos falhos da
internet: a precisão e a confiabilidade.
14
– Pedro Lima: Atualmente
existem diversos jornalistas que trabalham, criam e produzem por
conta própria. Isso é uma alternativa para quem está no começo da
carreira?
Wilson Serra:
Sim, claro. Principalmente neste momento em que todas as empresas do
país – e não só as de comunicação – estão com mãos e pés
nos freios, esperando por novos horizontes econômicos. Mas há um
desafio: não dá para fazer mais do mesmo. É preciso encontrar
conteúdos, formatos, segmentos e estilos diferentes para se
sobressair nesse mercado.
15
– Pedro Lima: Houve um
crescimento dos telejornais e programas jornalísticos locais. Como
você vê os concorrentes?
Wilson Serra:
Com muita alegria. Já há algum tempo, os telejornais locais são os
programas de maior audiência nas grades de programação das
diversas redes de TV. Isso mostra o interesse da população por
informação e a qualidade dos programas aqui produzidos. E os
empresários estão vendo isso. Espero que, além de reforçar e
investir em equipes e equipamentos, as emissoras também busquem
modelos e formatos diferentes. Hoje, os telejornais seguem um modelo
quase padronizado e tudo fica muito igual, muito parecido.
16
– Pedro Lima: Sua filha,
Joana, também é Jornalista. Você pode ter influenciado ela na
escolha da mesma profissão?
Wilson Serra: Procuro
não interferir nas carreiras dos meus filhos. Para mim, qualquer
profissão é boa, desde que exercida com ética e paixão. Tenho
sete filhos, cinco já formados, e só uma se formou em Jornalismo.
Como minha mulher também é jornalista, talvez a convivência
familiar tenha influenciado a Joana. Mas sempre deixamos a eles toda
a liberdade de escolha.
17
– Pedro Lima: Ano passado
você entregou o cargo de direção à Luciana Marangoni. Como foi
essa transição e durou quanto tempo?
![]() |
| Wilson Serra com a atual diretora de jornalismo, Luciana Marangoni |
Wilson Serra:
Foi planejada e muito transparente. Começou dois anos antes, numa
reunião de chefias, quando manifestei minha disposição de parar,
assim completasse 15 anos de casa, e entregar o cargo para alguém da
casa, da equipe, e não para alguém que viesse de fora. Em seguida,
junto com os acionistas, iniciamos um processo de preparação e
seleção entre as chefias mais próximas, até fecharmos no nome da
Luciana, em fevereiro do ano passado. A partir desse momento, fizemos
a negociação com a Rede, já que o cargo também é de confiança
da Globo, e iniciamos a transição, trabalhando lado a lado até
julho, quando a mudança, já conhecida internamente, foi
oficializada.
18
– Pedro Lima: Caso um
jornalista recém-formado queira ingressar na televisão, o que ele
deve fazer? Quais as principais dicas?
Wilson Serra:
A RPC tem uma porta de entrada muito conhecida e reconhecida que é o
Projeto Treinee, iniciado há quase 20 anos pelo competente formador
e editor Wilmar Lima, depois incorporado pelo RH e rebatizado de
Talento RPC. Anualmente são abertas inscrições e feita uma
pré-seleção. Esses pré-selecionados passam meses em treinamentos
teóricos e práticos em salas de aula e nas redações. Passado esse
treinamento, são considerados candidatos prioritários para todas as
vagas abertas no quadro do Jornalismo. Hoje, praticamente a metade
dos jornalistas da casa saiu desse processo de seleção e
preparação.
A dica principal é: esteja alerta e se
inscreva nas próximas seletivas que serão anunciadas e estarão
abertas nos sites do grupo.
19
– Pedro Lima: Qual foi o
maior desafio até hoje, em toda a sua carreira?
Wilson Serra:
Foi o mais recente: reconhecer que a missão estava cumprida e
assumir a disposição de parar. Deixar para trás uma grande paixão.
20
– Pedro Lima: Bate-bola: um
livro? Uma música? Um filme? Um programa de televisão?
Wilson Serra:
Livros: ainda a série sobre a ditadura do Elio Gasperi. Música:
qualquer uma, para ouvir e relaxar. Filme: o recente “Conspiração
e Poder”. Programa de TV: ainda o nosso Globo Repórter.
21
– Pedro Lima: Por fim,
gostaria que você deixasse uma mensagem para quem está começando a
carreira?
Wilson Serra:
Na minha opinião, o que mais mata o jornalismo e o jornalista é a
vaidade e a arrogância. Quando um jornalista deixa que esses dois
males dominem sua personalidade, seu caráter, está entrando num
caminho sem volta, o do fracasso. Muitas carreiras que começaram
brilhantes terminaram precocemente. Outras, discretas, humildes,
atravessam décadas. Se nascemos todos com dois olhos e dois ouvidos
e uma só boca, deve ser porque, antes de falar, devemos ouvir e ver
em dose dupla. Não somos delegados, juízes ou promotores, muito
menos “autoridades”. Somos servidores do público.
Entrevistado: Wilson Serra
Jornalista responsável: Pedro Lima


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