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terça-feira, 19 de abril de 2016

Pedro Lima Entrevista: Wilson Serra



Perfil: Wilson foi diretor de jornalismo da RPCTV, cargo em que esteve por mais de 15 anos. Chefiou também a produção dos telejornais da TV Globo. Atualmente é conselheiro editorial do grupo GRPCOM.

1 – Pedro Lima: Obrigado Wilson por essa entrevista. Numa entrevista concedida em 2005, você disse que apaixonou-se pela profissão do jornalista após a entrada na faculdade. Chegou a pensar em fazer outro tipo de curso ou talvez seguisse uma carreira diferente?
Wilson Serra: Comecei no Jornalismo dos anos 60, em Maringá, época em que não havia a exigência de registro ou de diploma para o exercício da profissão e também não havia faculdades de Jornalismo no Interior do Estado. Se aprendia fazendo, na prática. E se fazia por fazer, na base do voluntarismo, sem uma preocupação social, uma visão de mundo, de causa e consequência. Isso só veio anos mais tarde, com a faculdade. Ela não me ensinou práticas e processos, me deu conhecimento sobre o meu papel. E, por isso, me apaixonei pela profissão. O que era um processo mecânico virou sentido de vida. E como não havia faculdades de Jornalismo no Interior, meu primeiro vestibular foi para Direito em Maringá mesmo, mas não passei. Só nos anos 70, com a criação do Curso de Jornalismo na Universidade de Londrina, e eu morando em Apucarana, uma cidade mais próxima, entrei para a faculdade. Se tivesse passado no vestibular para Direito, talvez, minha vida seria outra.
2 – Pedro Lima: Você passou pelo jornalismo impresso, rádio, tevê, produtora e por fim, assessoria de imprensa. Em sua carreira, houve algo na profissão que queria fazer e não conseguiu?
Wilson Serra: Em termos de carreira profissional, nunca fui uma pessoa de metas e objetivos definidos ou planejados. As coisas foram acontecendo naturalmente. Sempre fui curioso, com disposição de observar, aprender, aceitar e encarar os desafios. E tive a felicidade de, ao longo da minha carreira, ter convivido e trabalhado com jornalistas muito competentes e com paciência para corrigir meus erros e me ensinar. A eles devo tudo o que sei e que posso ter realizado na carreira. E como nada foi planejado, me sinto feliz com o que fiz e consegui. Me sinto realizado.
3 – Pedro Lima: Wilson, durante sua passagem na TV Globo Rio, você chefiou telejornais diários da rede e o Núcleo de Reportagens Especiais. Como foi essa experiência em uma grande rede de televisão?
Wilson Serra: Um esclarecimento precisa ser feito: chefiei a produção dos telejornais e programas da rede. O comando e o poder de decisão sobre eles eram e continuam sendo dos editores chefes. Mas isso não anula a valiosa experiência. Trabalhar numa rede nacional abre a tua visão, te faz olhar além da esquina, da tua cidade, do teu estado. Te ensina a dimensionar o peso da informação e o interesse público que ela carrega, te ensina a comparar a tua realidade com a dos outros, te ensina a ver além do próprio umbigo. E veio também a experiência de planejar e trabalhar em grandes coberturas de grandes eventos, desde a visita de um papa à uma eleição presidencial, passando por olimpíadas e copa do mundo.
4 – Pedro Lima: No ano de 1999, o Paraná TV entrava no lugar do extinto Jornal Estadual. Para o público, houve alguma diferença entre ambos os telejornais? Qual era o propósito dessa troca, já que os apresentadores não eram necessariamente jornalistas na época do então Jornal Estadual? E por último, o público paranaense é exigente?
Wilson Serra: Quando retornei para a RPC, em 2000, a mudança já tinha ocorrido. Mas posso dizer que ela foi mais significativa dentro do que fora da TV. Foi a partir dessa mudança que o Jornalismo ganhou identidade, personalidade. Antes, faziam os telejornais profissionais de várias áreas, como Programação e Engenharia, além do Jornalismo, claro. Depois dela, todos passaram a ser do Jornalismo, fator fundamental para a integração das pessoas e o alinhamento editorial. Em resumo, o Jornalismo passou a ser feito por jornalistas.
Sobre o público paranaense, ele é muito diverso. Cada região do Estado teve uma colonização diferente e, portanto, tem hábitos, culturas e valores diferentes. Cabe ao jornalista o desafio de entender e respeitar esses valores, fazendo uma comunicação que leve em conta essas diferenças. Se não faz isso, não é visto ou é rejeitado. E a culpa não é de uma suposta exigência do público, mas da incapacidade do jornalista de trabalhar com essa multiplicidade de culturas e valores.
5 – Pedro Lima: No quesito pioneirismo, a RPC esteve sempre a frente. Um exemplo foi adotar, primeiramente, um modelo de telejornal fora da rede (SPTV) e também no lançamento do sinal digital em 2007. Este sempre foi o objetivo da emissora, assim como no jornalismo?
Wilson Serra: No mundo atual, não só as empresas, quem não evolui fica para trás. A RPC cresceu porque acompanhou todos os processos de modernização e mudanças de tecnologias, não só com a transmissão do sinal em digital e alta definição, mas também em todo o processamento interno de imagens e informações. Hoje não há mais ilhas nem fitas. Tudo é digital. E ela não esperou as outras para depois fazer o seu dever de casa. Foi a primeira TV do sul do Brasil a transmitir em digital e uma das primeiras do país a ter toda produção e o processamento interno, integrados e digitalizados. No conteúdo, especialmente no Jornalismo, sempre fomos parceiros de primeira hora da Globo no lançamento de projetos, programas. A RPC é , hoje, a principal e mais participativa das mais de cem emissoras afiliadas que a Globo tem no Brasil.
6 – Pedro Lima: A direção de jornalismo cuida, praticamente, de todos os programas regionais. Como foi essa experiência, já que podemos considerar um cargo sobrecarregado?
Wilson Serra: Dirigir, alinhar e orientar o conteúdo editorial do Jornalismo da RPC foi uma experiência extremamente gratificante. Durante os 15 anos que lá fiquei, em momento algum me faltou o apoio e a confiança dos acionistas do grupo. Em todo esse período, tive toda independência e em momento algum recebi ou sofri qualquer interferência por questões econômicas ou políticas. Tive também a felicidade de encontrar uma base de equipe muito bem formada e competente e, com ela, criar e estimular novos programas, séries e projetos, alguns até bastante reconhecidos e premiados. Trabalhei muito sim mas, em se tratando das questões editoriais, foi extremamente prazeroso.
Mas, como disse há pouco, quem não evolui fica para trás. A RPC, assim como a maioria das empresas, se modernizou. Aos poucos, a direção de jornalismo que, no início, cuidava quase que exclusivamente do editorial, passou a ser sobrecarregada com muitas outras tarefas de gestão, de administração. Essas tarefas, para as quais não tenho muita afinidade, no final, já tomavam mais da metade do meu tempo, me afastando do editorial que era o que sabia e gostava de fazer. A consequência foi o cansaço, o esgotamento e, daí, o pedido de “aposentadoria”.
7 – Pedro Lima: Hoje você ocupa do cargo de conselheiro no GRPCOM. Como era a sua rotina antes, como diretor de jornalismo e como ela é hoje?
Wilson Serra: Agora faço só o que gosto, que é o editorial. Continuo apenas no Conselho Editorial do Grupo que reúne, uma vez por semana, os acionistas e diretores de redação dos veículos. Como disse, as redações têm total independência, mas o Conselho tem a função de alinhar princípios e valores éticos e editoriais e é, também, um elo de ligação e de integração entre as redações dos diversos veículos do grupo.
Perdi – e sinto falta – a correria do dia a dia, o planejamento e o fechamento dos telejornais, mas juntos foram a gestão e a burocracia, que tanto me aborreciam e sobrecarregavam.
8 – Pedro Lima: Sua carreira começou nos anos de 1967, já com a fase da Ditadura Militar. Chegou a sofrer algum tipo de censura por parte do governo?
Wilson Serra: Comecei no Esporte e depois do jornalismo local, áreas que passaram ao largo do controle exercido pela ditadura aos veículos de comunicação. Mas me lembro, na época em que trabalhei na TV Tibagi da Apucarana, dos telegramas quase diários da Polícia Federal proibindo a publicação de notícias nacionais. Eles eram colados por nós, numa espécie de mural, no lado interno da porta da redação. Proibiam a divulgação de prisões, assaltos, sequestros, manifestações políticas e, com isso, acabavam nos informando das coisas que aconteciam e que não sabíamos, já que nada era publicado em veículo algum do país. Além disso, todos os scripts dos telejornais, página por página, tinham que ser assinados pelo responsável e enviados para a delegacia da PF em Londrina. Não sei o que faziam com todos esses papéis lá, mas não me lembro de qualquer punição ou advertência por alguma notícia publicada, até porque os telejornais eram regionais, paranaenses.
9 – Pedro Lima: A faculdade nos ensina a sermos jornalistas imparciais. Na sua opinião, o jornalismo atual é ainda visto dessa maneira?
Wilson Serra: Imparcialidade não existe. Até quando escolhemos entre duas notícias qual delas vai ao ar, vai ser publicada, já estamos sendo parciais, privilegiando alguma coisa em detrimento de outra.
10 – Pedro Lima: A internet ajuda a população a ter voz. Você acha que os telejornais também podem ser usados da mesma maneira?
Wilson Serra: Respeitando os limites de espaço e tempo, os telejornais, especialmente os da RPC, fazem isso já há um bom tempo. Em todos há bons espaços de interação através do G1, do “portal de voz” e, mais recentemente, do aplicativo “Você na RPC”. Fomos a primeira afiliada da Globo a abrir um canal, o “Hora Certa”, para a participação direta do telespectador, enviando imagens e até reportagens prontas para publicação.
O problema é que o volume de participações é tão grande que não há espaço para publicar tudo. Me lembro que, há pouco mais de três anos, uma tempestade causou muitos estragos em Maringá e nós recebemos, pelo “Hora Certa”, mais de 500 imagens dessa chuva. Somadas, eram mais de seis horas de imagens de uma chuva e toda a primeira edição do Paraná-TV tem apenas 40 minutos de tempo de produção.
O fundamental é que o telejornal consiga perceber e levar ao ar os anseios e as informações que representem a voz da maioria da população.
11 – Pedro Lima: Hoje também há muita discussão e ódio entre ideologias diferentes. O que nós, jornalistas, podemos fazer em relação a isso?
Wilson Serra: O momento do país é difícil e há muito radicalismo, principalmente nas redes sociais. A minha formação é de um jornalismo de informação, de serviço, de difusão de conhecimento. Para julgar o lado A ou o lado B, existem a Justiça, as Leis, a Constituição. Não cabe ao jornalismo a tarefa de julgar. Cabe sim a apuração e a divulgação de informações completas e isentas de todos os lados, deixando a população suficientemente conhecedora para que ela possa, por si mesma, tomar a decisão. O povo não precisa de tutores.
12 – Pedro Lima: Você acompanhou diversas coberturas jornalísticas. Houve alguma que ficou na memória?
Wilson Serra: De todas, a mais marcante foi a série dos “Diários Secretos”, não pelos prêmios, mas pela forma que ela começou e se desenvolveu, porque resume tudo o que preguei nos mais 15 anos de direção de Jornalismo na RPC. Ela não surgiu “de cima para baixo”, como se diz nas redações. Nasceu do trabalho de apuração da equipe, de baixo para cima, foi discutida internamente e levada em frente com apoio e a confiança não só das chefias, mas também da direção da empresa. Foram dois anos de pesquisa, de busca de documentos, depoimentos, testemunhas, de provas irrefutáveis, tudo com acompanhamento jurídico, para que, quando fosse publicada, estivesse absolutamente correta.
E o que mais me marcou, que me deu a certeza da alta qualidade da equipe que produziu a série, aconteceu seis meses antes dela ir ao ar. Quando imaginávamos que tudo estava pronto para a publicação, o time formado pelo James, pelo Gabriel, pela Kátia e pelo Carlão, pediu uma nova reunião e apresentou alguns pontos que, segundo eles, apesar de todas as evidências, ainda necessitavam de mais documentos, de mais provas. E assim, graças à prudência e a responsabilidade do quarteto, a série só foi publicada quando todas as pontas estavam devidamente amarradas. Para mim, foi a garantia de ter uma equipe competente e responsável.
13 – Pedro Lima: Há uma ascensão grande da internet, com a chegada de notícias a todo instante. Alguns dizem que, por conta disso, haverá a extinção do jornal impresso. Na sua opinião, isso pode ocorrer?
Wilson Serra: Há espaço para todo mundo. Diziam a mesma coisa do rádio quando surgiu a televisão. Vivemos hoje um período de confusão com diversos tipos de mídia disputando um mesmo espaço. A internet, até surgir algo ainda mais revolucionário, é imbatível em velocidade e em interatividade, mas perde muito em precisão e confiabilidade. Assim como o rádio e a TV hoje convivem sem que um ameace o outro de extinção, acredito que o jornalismo impresso ainda vai encontrar o seu espaço. E o caminho certamente vai passar pelos pontos falhos da internet: a precisão e a confiabilidade.
14 – Pedro Lima: Atualmente existem diversos jornalistas que trabalham, criam e produzem por conta própria. Isso é uma alternativa para quem está no começo da carreira?
Wilson Serra: Sim, claro. Principalmente neste momento em que todas as empresas do país – e não só as de comunicação – estão com mãos e pés nos freios, esperando por novos horizontes econômicos. Mas há um desafio: não dá para fazer mais do mesmo. É preciso encontrar conteúdos, formatos, segmentos e estilos diferentes para se sobressair nesse mercado.
15 – Pedro Lima: Houve um crescimento dos telejornais e programas jornalísticos locais. Como você vê os concorrentes?
Wilson Serra: Com muita alegria. Já há algum tempo, os telejornais locais são os programas de maior audiência nas grades de programação das diversas redes de TV. Isso mostra o interesse da população por informação e a qualidade dos programas aqui produzidos. E os empresários estão vendo isso. Espero que, além de reforçar e investir em equipes e equipamentos, as emissoras também busquem modelos e formatos diferentes. Hoje, os telejornais seguem um modelo quase padronizado e tudo fica muito igual, muito parecido.
16 – Pedro Lima: Sua filha, Joana, também é Jornalista. Você pode ter influenciado ela na escolha da mesma profissão?
Wilson Serra: Procuro não interferir nas carreiras dos meus filhos. Para mim, qualquer profissão é boa, desde que exercida com ética e paixão. Tenho sete filhos, cinco já formados, e só uma se formou em Jornalismo. Como minha mulher também é jornalista, talvez a convivência familiar tenha influenciado a Joana. Mas sempre deixamos a eles toda a liberdade de escolha.
17 – Pedro Lima: Ano passado você entregou o cargo de direção à Luciana Marangoni. Como foi essa transição e durou quanto tempo? 

Wilson Serra com a atual diretora de jornalismo, Luciana Marangoni

Wilson Serra: Foi planejada e muito transparente. Começou dois anos antes, numa reunião de chefias, quando manifestei minha disposição de parar, assim completasse 15 anos de casa, e entregar o cargo para alguém da casa, da equipe, e não para alguém que viesse de fora. Em seguida, junto com os acionistas, iniciamos um processo de preparação e seleção entre as chefias mais próximas, até fecharmos no nome da Luciana, em fevereiro do ano passado. A partir desse momento, fizemos a negociação com a Rede, já que o cargo também é de confiança da Globo, e iniciamos a transição, trabalhando lado a lado até julho, quando a mudança, já conhecida internamente, foi oficializada.
18 – Pedro Lima: Caso um jornalista recém-formado queira ingressar na televisão, o que ele deve fazer? Quais as principais dicas?
Wilson Serra: A RPC tem uma porta de entrada muito conhecida e reconhecida que é o Projeto Treinee, iniciado há quase 20 anos pelo competente formador e editor Wilmar Lima, depois incorporado pelo RH e rebatizado de Talento RPC. Anualmente são abertas inscrições e feita uma pré-seleção. Esses pré-selecionados passam meses em treinamentos teóricos e práticos em salas de aula e nas redações. Passado esse treinamento, são considerados candidatos prioritários para todas as vagas abertas no quadro do Jornalismo. Hoje, praticamente a metade dos jornalistas da casa saiu desse processo de seleção e preparação.
A dica principal é: esteja alerta e se inscreva nas próximas seletivas que serão anunciadas e estarão abertas nos sites do grupo.
19 – Pedro Lima: Qual foi o maior desafio até hoje, em toda a sua carreira?
Wilson Serra: Foi o mais recente: reconhecer que a missão estava cumprida e assumir a disposição de parar. Deixar para trás uma grande paixão.
20 – Pedro Lima: Bate-bola: um livro? Uma música? Um filme? Um programa de televisão?
Wilson Serra: Livros: ainda a série sobre a ditadura do Elio Gasperi. Música: qualquer uma, para ouvir e relaxar. Filme: o recente “Conspiração e Poder”. Programa de TV: ainda o nosso Globo Repórter.
21 – Pedro Lima: Por fim, gostaria que você deixasse uma mensagem para quem está começando a carreira?
Wilson Serra: Na minha opinião, o que mais mata o jornalismo e o jornalista é a vaidade e a arrogância. Quando um jornalista deixa que esses dois males dominem sua personalidade, seu caráter, está entrando num caminho sem volta, o do fracasso. Muitas carreiras que começaram brilhantes terminaram precocemente. Outras, discretas, humildes, atravessam décadas. Se nascemos todos com dois olhos e dois ouvidos e uma só boca, deve ser porque, antes de falar, devemos ouvir e ver em dose dupla. Não somos delegados, juízes ou promotores, muito menos “autoridades”. Somos servidores do público.

Entrevistado: Wilson Serra
Jornalista responsável: Pedro Lima

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Pedro Lima Entrevista: Clébio Cavagnolle





Perfil: é atualmente um dos âncoras do Jornal Hora News, da Record News e já teve passagens pela RIT - Rede Internacional de Televisão e Rede Brasil. É uma das melhores promessas para o jornalismo televisivo! 



1 – Antes de tudo, obrigado por ceder essa entrevista conosco. Primeiramente, gostaria de perguntar por que escolheu o jornalismo e como foi?

Eu que agradeço pela consideração de vocês com meu trabalho. Bem, o jornalismo veio para mim como convicção muito cedo. Desde adolescente, já sabia que era isso. Infelizmente, por diversos motivos, inclusive financeiros, não pude ingressar na faculdade tão cedo quanto gostaria. Tive de cursar Administração, inclusive quando trabalhava em banco, mas vi que estava perdendo tempo, porque não seria feliz naquela carreira. Então, me lancei logo no caminho dos meus sonhos. Acho que, quem opta pelo jornalismo, se o faz por uma questão ideológica, logo percebe que se trata de um dom. Corre nas veias. Você tem um senso de justiça e não consegue calar-se diante de certas coisas. Tem vontade de ajudar as pessoas, de poder fazer algo que impacte o mundo positivamente, ainda que seja algo pequeno. Talvez, meu defeito ou qualidade, é que enxergo o jornalismo como uma missão, não mera profissão ou modo de ganhar dinheiro. Embora fosse tímido na adolescência, tinha uma paixão enorme por TV. Acho que era um adolescente pouco comum, já que assistia a muitos telejornais, lia muitos jornais e revistas. Minha primeira experiência com isso, muito antes de pensar em cursar a faculdade, foi aos 15 anos, em uma rádio local de Ribeirão Pires, onde sempre morei. Ficava sempre durante as tardes de sábados no ar, horas e horas, inclusive. Me divertia com aquilo. E essa paixão pela comunicação me pegou. Entretanto, só consegui minha primeira chance em TV aos 23 anos, quando comecei como repórter voluntário de um canal de TV a cabo em Santo André, antigo Canal ABC 3, uma verdadeira escola e seleiro de grandes talentos. Foram quase cinco anos trabalhando voluntariamente no canal. Fiz grandes eventos, depois tive dois programas de entrevistas, ao vivo, e isso foi me dando o jogo de cintura necessário para as grandes coberturas que temos hoje. Foi um processo maravilhoso, e enquanto era voluntário, tinha de trabalhar em outras coisas para poder me sustentar. Fui até vendedor de planos de Saúde... Pena que vendi apenas um, ainda para minha própria avó.. rs.. A caminhada foi bem árdua, mas com muita luta e fé as coisas aconteceram, do jeito e no tempo que Deus quis. A televisão é algo que me encanta muito. Eu sonhei com isso minha adolescência toda. Tudo isso, dia após dia, me leva a certeza de que escolhi o caminho certo.

2 – Quem foi a maior influência nessa escolha?

Sempre tive o apoio da minha família, que jamais me forçou ou tentou influenciar para outro caminho. Tive um apoio especial da minha mãe e avó, além de tios e tias. Amigos também. Fui muito feliz neste aspecto, tendo incentivo de muita gente que me acompanha e dá ótimas dicas até hoje. Acho que além de minha mãe, minha maior fã era a avó Antônia. Ela me assistia e depois ligava dando dicas, ainda lá no comecinho. Infelizmente, ela não está mais aqui para acompanhar. Minha escolha pela comunicação teve ainda uma referência forte, em termos de exemplo a seguir: Silvio Santos. Como comunicador, pela inteligência e capacidade de improviso. Como homem de negócios, que do nada, tornou-se dono de uma fabrica de sonhos. Creio, inclusive, que ele seja referência para a maioria das pessoas que sonham com essa carreira em televisão. Evidentemente, no jornalismo, sempre tive admiração por nomes como Boris Casoy, Carlos Nascimento, Celso Freitas, Roberto Cabrini e Heródoto Barbeiro, com quem tenho o prazer de trabalhar, entre tantos outros nomes brilhantes. Mas, não tento imitar ninguém. Acredito que, quando somos originais, verdadeiros, as pessoas podem captar o melhor de nós: nossa essência. E isso deve mover nosso profissionalismo também.

3 – De algum modo, pensou em desistir do curso?

Nunca! Foi uma caminhada árdua e difícil, mais difícil ainda foi entrar na área, mas nunca pensei em desistir e nem recomendo. Não se desiste de um sonho, com o qual você se deita e acorda todos os dias em mente.

4 – Vemos que a linguagem do jornal televisivo mudou de um tempo para cá. Concorda com essa afirmação?

Concordo. As pessoas têm cada dia mais acesso, e de forma mais rápida, às notícias e informações em geral. Isso requer que a televisão também seja rápida, sem perder o senso crítico e ético, além de algo muito importante, que é a apuração. A linguagem, em termos da maneira de comunicar algo, precisou ficar mais próxima do telespectador. Não pode ser algo distante, formal demais. Tem que ser do jeito de quem assiste e quer a informação para aquele momento, por exemplo, das condições climáticas ou do trânsito para poder sair de casa prevenido. O jornalismo, cada vez mais, se rende à prestação de serviço, com o desafio de não perder a veia investigativa. É o nosso desafio e vamos nos adequando a isso.

5 – Qual é o balanço positivo e negativo nesses dez anos de carreira jornalística?

Não existe um balanço negativo. Acho que, mesmo as piores situações que enfrentei, foram aprendizados e me serviram de exemplo para não repetir, não me render às propostas que ferem minha visão, índole ou meus princípios. Eu gostaria de ter chegado onde estou mais cedo, mas, aprendi até isso. Que nem tudo é como nós queremos. Que as coisas têm um tempo certo, o de Deus, para acontecer. E creio que cheguei em um momento bom. Me sinto mais preparado para não decepcionar quem acredita em mim e quem me acompanha. Mais maduro para discernir o que é correto e o que pode não ser bom para minha carreira. Enfim. Ter passado por Assessoria de Imprensa, ter atuado em campanhas políticas, escrito para jornais impressos do porte do Estadão, além de revistas, me deram uma bagagem sensacional. Recebi propostas indecentes que me permitiriam ter ficado rico de um dia pro outro, mas não aceitei porque feriam meus princípios. Não me orgulho, porque penso que caráter não tem preço, e é o mínimo, atuar de forma correta é obrigação, não mérito. Também vi muito da minha ideologia ir pelo ralo nesta caminhada, porque quando saímos da faculdade, achamos que poderemos mudar o mundo. E aqui fora, não é tão simples. Já fui censurado nos meus tempos de impresso. Não pude publicar denúncias e tantas situações que nem vale à pena relembrar. Ainda assim, tudo isso me fez crescer, como profissional e como pessoa, sem perder, graças a Deus, minha essência.

6 – Houve muita discussão nas redes sociais durante as eleições, devemos impulsionar debates políticos mais “sadios” na internet?

Penso que o problema foi exatamente este: discussão. As pessoas criam verdadeiros embates, e isso não é saudável. Debates, sim. Trocar ideia, colocar opiniões, tudo isso é bom e ajuda o processo democrático. Agora, quando levam para o nível de ofensas pessoais, preconceitos, chegamos até a casos de xenofobia com os nordestinos, veja que absurdo! Debates de nível elevado sempre serão importantes, em especial sobre a Política aqui no Brasil.

7 – Para você, o que quer para o Brasil nesses próximos quatro anos?

Em especial, que acabemos com a impunidade. Que os criminosos paguem pelos crimes que cometeram com rigor. Que a corrupção seja devidamente punida e que nossa economia saia deste poço de estagnação. Nosso povo é muito sofrido e merece notícias melhores.

8 – É uma vitória estar na bancada do canal de notícias na Tv aberta?

Como relatei no início, caminhei bastante e comi muita poeira para chegar aqui. Embora quisesse que isto tivesse acontecido antes, reconheço que sou jovem, cheguei neste posto aos 31 anos. Perto de completar 33, me considero vitorioso. Estou em um excelente grupo de comunicação, e a Record News está em uma fase excelente. Somos o canal de notícias mais assistido pelos brasileiros mais uma vez, uma referência para canais internacionais e grupos de comunicação do mundo todo. Quando a CNN ou BBC, por exemplo, precisam da transmissão de algum fato aqui no Brasil, em geral usam nossa cobertura. Audiência boa, uma equipe unida e focada, uma chefia e direção que permitem oportunidades boas. Estou realizado e feliz com tudo que temos feito.

9 – Quais são seus livros, músicas e citações favoritas?

Gosto muito de livros reflexivos, biografias e jornalísticos. Minha leitura diária é da Bíblia, gosto disso porque me inspira, e acho que a relação que temos com Deus determina muito quem somos e para onde vamos. Além dela, ano passado li seis livros. Ganhei um de presente que gostei muito e recomendo: "Graça infinita", de David Foster. Ele faz uma ótima reflexão sobre o vício, o individualismo e a obsessão pelo entretenimento. Quanto a músicas, não sou muito eclético. Gosto de MPB e Rock Nacional, e também ouço muito instrumental e POP internacional. Não sou ligado a músicas da moda.

10 – Como você se vê daqui á 10 anos?

Difícil falar profissionalmente. Espero continuar com o respeito do nosso público e com as boas oportunidades que o Grupo Record me oferece. Em termos pessoais, espero estar casado e com um casal de filhos, tendo minha família e amigos ao lado.

11 – O que você recomenda aos futuros jornalistas?

Espero que eles não escolham essa profissão pensando em glamour ou dinheiro. Se acontecer, é consequência. Se não, não deve ser motivo de frustração. Jornalismo tem de ser levado como missão. Desejo que façam com ética, seriedade, sem se vender ou fazer jogo sujo que algumas situações podem impor. E que, quando chegarem ao mercado, sejam leais aos seus princípios, seus colegas e, acima de tudo, ao público que terá acesso ao que produzirem.

12 – Por último, que é Clébio Cavagnolle?


Acho meio pretensioso me descrever...rs. Em todo caso, diria que sou uma das pessoas mais falhas e complexas, repleto de inúmeros defeitos, mas que enxerga nisto tudo a oportunidade de melhorar a cada dia. No meio de tantos defeitos, enxergo um ser sonhador, que ainda acredita que, mesmo de maneira singela, pode auxiliar na construção de uma sociedade melhor. Vejo Deus em tudo, e desejo que Ele esteja em tudo o que faço. Busco não criar mais expectativas, ao contrário, permito-me ser surpreendido pelo bom e inesperado.



Convidado: Clébio Cavagnolle

Responsável: Pedro Lima